O parto

Cardiotocografia (cardiotoco): o que as curvas mostram sobre o bebê e as contrações

Em resumo

A cardiotocografia, ou cardiotoco, registra ao mesmo tempo os batimentos do coração do bebê e as contrações do útero. A FEBRASGO considera normal uma frequência cardíaca de base de 110 a 160 batimentos por minuto, e a Rede D’Or diz que o exame leva de 20 a 40 minutos. O traçado mostra bem com que frequência as contrações vêm, mas a força delas o sensor, que fica por fora da barriga, mede só em parte. Um aplicativo de contrações não substitui o exame: ele só guarda os horários que você marca.

Neste artigo
  1. O que a cardiotocografia registra
  2. Como ler a cardiotocografia: as duas curvas
  3. Cardiotoco e contrações: por que a altura da curva diz pouco sobre a força
  4. Quando se faz a cardiotocografia?
  5. Existe cardiotoco em aplicativo?
  6. Anote as contrações em casa antes de ir para a maternidade

Talvez você tenha ficado deitada no cardiotoco e se perguntado por que a curva das contrações ficou tão baixa, mesmo com a contração doendo. Ou talvez esteja procurando um cardiotoco para usar em casa. A cardiotocografia registra os batimentos do coração do bebê e as contrações do útero. No Brasil, o exame costuma ser pedido na reta final da gravidez e também pode ser usado durante o trabalho de parto. Nele, dá para ver bem com que frequência as contrações vêm. Quanto à força das contrações e à dor que elas causam, a curva não é um retrato confiável.

O que a cardiotocografia registra

Cardiotocografia, também chamada de cardiotoco ou CTG, é um exame que registra a atividade cardíaca do bebê e as contrações uterinas em tempo real, segundo a Rede D’Or. O aparelho se chama cardiotocógrafo. A FEBRASGO, a federação brasileira das associações de ginecologia e obstetrícia, descreve um método não invasivo, com registro gráfico simultâneo dos batimentos do bebê, dos movimentos fetais e das contrações. Ela o divide em anteparto, feito na gravidez, e intraparto, feito durante o trabalho de parto.

Para o registro, duas cintas com sensores ficam em volta da sua barriga. Uma tem um transdutor de ultrassom, que registra os batimentos do bebê. A outra tem um tocodinamômetro, um sensor que registra as contrações (Rede D’Or). A Rede D’Or diz que o exame leva de 20 a 40 minutos, conforme a resposta do bebê. A FEBRASGO fala em uma avaliação média de 10 minutos e em até 30 minutos a mais para confirmar uma alteração, e recomenda fazer o exame com você deitada de lado, semideitada ou sentada. Não é preciso jejum: a Rede D’Or pede que você se alimente normalmente, para evitar hipoglicemia, que pode alterar o resultado.

Como ler a cardiotocografia: as duas curvas

No monitor ou na tira de papel, você vê duas curvas. A de cima mostra os batimentos do bebê, em batimentos por minuto (bpm). A de baixo mostra as contrações. A equipe avalia a curva dos batimentos por quatro parâmetros. Segundo a FEBRASGO, na cardiotocografia anteparto, o traçado normal é este:

ParâmetroO que éNormal segundo a FEBRASGO
Linha de basea frequência cardíaca média do bebê110 a 160 bpm; abaixo de 110 é bradicardia e acima de 160 é taquicardia
Variabilidadequanto a frequência varia em torno da linha de base6 a 25 bpm
Aceleraçõesaumentos temporários da frequência, em geral quando o bebê se mexepelo menos 2 aumentos de 15 bpm ou mais, de 15 segundos ou mais, em menos de 40 minutos (acima de 32 semanas)
Desaceleraçõesquedas temporárias da frequêncianenhuma, ou ocasionais e curtas, de menos de 30 segundos

A FEBRASGO classifica o traçado em três categorias. Na normal, o bem-estar do bebê pode ser considerado assegurado, e uma nova avaliação depende do quadro clínico. Na atípica ou indeterminada, a equipe precisa de mais avaliação, como o perfil biofísico fetal ou o Doppler. Na anormal, a conduta é urgente. A Rede D’Or cita como sinais de atenção a bradicardia, com batimentos abaixo de 110 bpm por mais de 3 minutos, a taquicardia, com batimentos persistentemente acima de 160 bpm, e as desacelerações, quedas bruscas nos batimentos. Nesses casos, segundo a Rede D’Or, o médico pode pedir outros exames, como o ultrassom com Doppler, ou antecipar o parto.

Um traçado alterado não é, por si só, um diagnóstico. A FEBRASGO observa que o exame tem baixo valor preditivo positivo e que as alterações devem ser analisadas com cautela, muitas vezes com uma avaliação adicional. Prematuridade, sono do bebê, medicamentos usados pela gestante, tabagismo e alterações do sistema nervoso do bebê também podem alterar o traçado. Você não precisa decifrar os números do monitor sozinha: pergunte à equipe o que cada um quer dizer.

A curva de baixo você lê assim: cada contração aparece como uma onda que sobe e depois desce (Rede D’Or). Contando as ondas e olhando o tempo entre elas, você vê com que frequência as contrações estão vindo.

Infográfico

Como ler um cardiotoco

Curva de cima: batimentos do bebê em batimentos por minuto; a FEBRASGO considera normal uma linha de base de 110 a 160 (faixa verde)

Curva de baixo: contrações mostra bem com que frequência as contrações vêm; a força, o sensor por fora da barriga mede só em parte

Desenho esquemático, não é um registro real. Se um traçado está dentro do esperado, quem avalia é o médico, a enfermeira obstétrica ou a obstetriz, olhando o conjunto.

Cardiotoco e contrações: por que a altura da curva diz pouco sobre a força

A Rede D’Or diz que o exame avalia a intensidade e a duração das contrações. Na medida feita por fora da barriga, porém, isso vale só em parte. O sensor fica por fora, sobre a barriga, e não mede a pressão dentro do útero.

Um estudo comparativo de Miles e colegas, de 2001, mostra isso. Em 20 gestantes entre 36 e 41 semanas, em trabalho de parto ativo, as contrações foram registradas durante 2 horas ao mesmo tempo por um sensor externo e por um cateter de pressão dentro do útero. A frequência das contrações coincidiu bem, mas a altura e a duração das ondas quase não coincidiram. O estudo é pequeno, e descreve as participantes como moderadamente obesas, com IMC mediano de 31,8 kg/m². Os autores concluem que, nesse grupo, não se deve confiar só na medida externa.

Nenhum aparelho mede a dor. O que você sente em cada contração, só você sabe, então diga à equipe como está, mesmo que a curva pareça baixa.

O cardiotoco também não mostra se as contrações estão dilatando o colo do útero. Segundo o ACOG, às vezes só o exame de toque consegue separar as contrações do trabalho de parto das de treinamento, pois verifica se há mudanças no colo do útero. Há mais sobre a diferença em contrações de treinamento.

Quando se faz a cardiotocografia?

Na gravidez: a cardiotocografia anteparto

A Rede D’Or diz que o exame pode ser feito a partir da 26ª semana, mas é mais comum no terceiro trimestre, depois de 28 semanas, e que em gravidez de risco pode ser pedido mais cedo. Para a Rede D’Or, ele entra de rotina no último trimestre, a partir da 36ª semana, e nas gestações de alto risco, como diabetes gestacional, hipertensão, restrição de crescimento do bebê ou história de parto prematuro. Nessas gestações, ele é repetido toda semana ou como o médico orientar.

O protocolo da FEBRASGO tem outra ênfase. Ele diz que há evidências contrárias à cardiotocografia anteparto em gestações de baixo risco, com cerca de 50% de falsos positivos, e que ela pode ser considerada quando há riscos para um desfecho adverso. A FEBRASGO afirma que ela não está indicada antes de 26 semanas, porque ainda não há parâmetros de normalidade para essa idade gestacional. Ela recomenda avaliar o bem-estar do bebê toda semana a partir de 36 semanas no diabetes pré-gestacional e no gestacional com insulina, e fazer pelo menos uma cardiotocografia, com a avaliação do líquido amniótico, entre 41 e 42 semanas. Por isso a prática varia: uma gestante faz o exame, outra não. Se você quer saber por que o exame foi pedido, ou por que não foi, pergunte à sua equipe.

No dia a dia, a Caderneta da Gestante lista a diminuição ou a ausência dos movimentos do bebê entre os sinais de alerta e pede atendimento imediato, especialmente se o bebê ficar mais de 4 horas sem se mexer depois das 20 semanas. A FEBRASGO é mais específica: no terceiro trimestre, se você notar que o bebê se mexe menos do que de costume, conte os movimentos e, se forem menos de 6 em 2 horas, procure assistência médica o mais rápido possível. Não espere o próximo exame marcado: procure o serviço de saúde.

Na maternidade e durante o trabalho de parto

Para mulheres de baixo risco, as Diretrizes Nacionais de Assistência ao Parto Normal recomendam avaliar o bem-estar do bebê com ausculta intermitente, em todos os locais de parto, com o estetoscópio de Pinard ou o sonar Doppler. A ausculta é feita antes, durante e logo depois de uma contração, por pelo menos 1 minuto e a cada 30 minutos (recomendação 25).

A cardiotocografia entra quando algo pede mais informação. Depois do início da analgesia regional, as Diretrizes pedem ausculta de 5 em 5 minutos por no mínimo 30 minutos e, se algo se alterar, a instalação da cardiotocografia (recomendação 77). Uma frequência cardíaca do bebê fora de 110 a 160 bpm ou desacelerações na ausculta estão entre as condições que levam a transferir a mulher para uma maternidade em hospital ou a pedir a assistência de um médico obstetra (recomendação 95).

O NHS, o serviço público de saúde britânico, diz que a equipe pode sugerir o monitoramento eletrônico se houver preocupações ou se você escolher a peridural, e que você pode pedi-lo mesmo sem preocupações, embora ele possa limitar os seus movimentos. A Caderneta da Gestante inclui, entre os seus direitos, ter explicações sobre os procedimentos e os exames realizados. Pergunte à sua maternidade como ela acompanha os batimentos do bebê.

Existe cardiotoco em aplicativo?

Um aplicativo não substitui o cardiotoco. O nosso app de contrações também não mede nada no corpo: você toca em “Contração começou” e em “Contração terminou”, e o app calcula a duração e o intervalo. Como o app calcula explica os detalhes.

Se o bebê está bem, um aplicativo não mostra. Para isso, a equipe escuta os batimentos ou faz uma cardiotocografia. O app faz a conta por você quando você está sentada em casa, de madrugada, querendo saber se os intervalos estão ficando mais curtos, e avisa quando a regra que você cadastrou é atingida.

Anote as contrações em casa antes de ir para a maternidade

Em casa, ninguém faz cardiotoco. O que você pode registrar é o ritmo das contrações, e é dele que trata a regra para ir à maternidade.

  • Anote o começo e o fim de cada contração, com relógio e papel ou na tabela de contrações para imprimir.
  • Anote também a hora em que a bolsa estourou e a cor do líquido.
  • Registre se há sangramento e se o bebê está se mexendo como de costume.

No Brasil, não existe uma regra nacional: a Caderneta da Gestante pede que você combine com a equipe do pré-natal quando procurar a maternidade. Como regra prática, a Lamaze International diz que muitos profissionais usam a 5-1-1, com contrações a cada 5 minutos, de 1 minuto cada, por pelo menos uma hora. Se a sua maternidade disse outra coisa, vale a orientação dela.

Na maternidade, você pode mostrar as anotações à equipe. Elas não substituem o exame, mas dão um panorama rápido de como as contrações evoluíram. Como medir as contrações com precisão está em como contar as contrações, e quando ir está em quando ir para a maternidade.

Ligue na hora, seja qual for o ritmo das contrações

Se algum destes sinais aparecer, não espere as contrações entrarem num padrão. Ligue na hora para a maternidade, seu médico ou sua enfermeira obstétrica, de dia ou de noite. A lista segue o NHS, o serviço público de saúde do Reino Unido, e o ACOG, o colégio americano de obstetras e ginecologistas. O limite da febre segue a Caderneta da Gestante, do Ministério da Saúde.

  • A bolsa estourou, mesmo que você ainda não tenha contrações.
  • O líquido tem cor, como verde ou amarelo, ou tem cheiro ruim.
  • Você está com sangramento pela vagina. Um pouco de sangue no tampão mucoso pode fazer parte; se for mais do que isso, ligue.
  • O bebê está se mexendo menos do que de costume.
  • Você sente uma dor forte e constante, que não alivia entre as contrações.
  • Você está com febre de 37,8 °C ou mais.
  • Você está com menos de 37 semanas e acha que o trabalho de parto pode ter começado.
  • Uma contração dura mais de 2 minutos, ou você tem 6 contrações ou mais em 10 minutos.
  • Você está em dúvida ou preocupada. Pode ligar a qualquer hora.

Ligue para o SAMU (192) se sentir uma vontade muito forte de fazer força e achar que o bebê vai nascer agora.

Fontes desta lista: NHS: Signs that labour has begun (2023); NHS: Pregnancy symptoms you need to get help for; ACOG: How to tell when labor begins; Ministério da Saúde: Caderneta Brasileira da Gestante (2026)

Perguntas frequentes

O que é cardiotoco e para que serve?

Cardiotoco é a forma curta de cardiotocografia, também chamada de CTG. É um exame que registra, em tempo real, a atividade cardíaca do bebê e as contrações do útero, e ajuda a avaliar a oxigenação e o bem-estar do bebê (Rede D’Or). A FEBRASGO acrescenta o registro dos movimentos do bebê e diz que o exame tem alto valor preditivo negativo: quando o traçado é normal, o bem-estar do bebê pode ser assegurado.

Quanto tem que dar no cardiotoco?

Não há um resultado único: a equipe avalia o traçado inteiro. A FEBRASGO considera normal uma frequência cardíaca de base de 110 a 160 batimentos por minuto, uma variabilidade de 6 a 25 bpm, pelo menos 2 acelerações de 15 bpm ou mais, de 15 segundos ou mais, em menos de 40 minutos (acima de 32 semanas) e nenhuma desaceleração, ou só ocasionais e curtas, de menos de 30 segundos. A Rede D’Or também cita 110 a 160 bpm.

Quando o cardiotoco é preocupante?

Quem decide é a equipe, olhando o traçado inteiro. A Rede D’Or cita como sinais de atenção batimentos abaixo de 110 por minuto por mais de 3 minutos, batimentos persistentemente acima de 160 e quedas bruscas nos batimentos, as desacelerações. A FEBRASGO classifica o traçado como normal, atípico ou anormal: o atípico pede mais avaliação, e o anormal pede conduta urgente. Ela lembra que o exame tem baixo valor preditivo positivo, então as alterações devem ser analisadas com cautela e muitas vezes pedem uma avaliação adicional. Se o bebê estiver se mexendo menos do que de costume, procure atendimento na hora (Caderneta da Gestante).

Qual idade gestacional faz cardiotoco?

A Rede D’Or diz que o exame pode ser feito a partir da 26ª semana, que é mais comum depois de 28 semanas e que, na rotina, entra no último trimestre, a partir da 36ª semana. A FEBRASGO afirma que a cardiotocografia anteparto não está indicada antes de 26 semanas e que há evidências contrárias a ela em gestações de baixo risco, nas quais pode ser considerada quando há riscos para um desfecho adverso. Pergunte à sua equipe por que o exame foi pedido, ou por que não foi.

O que acontece se o bebê não mexer no cardiotoco?

O bebê pode estar dormindo. A FEBRASGO diz que o ciclo de sono do bebê costuma durar de 20 a 40 minutos e quase nunca passa de 90 minutos. Se não há acelerações, a equipe pode usar a estimulação vibroacústica, um aparelho que emite um som perto da barriga, ou prolongar a observação: com mais tempo, o bebê costuma se mexer mesmo sem estímulo. Fora do exame, a Caderneta da Gestante lista a diminuição ou a ausência dos movimentos do bebê entre os sinais de alerta e pede atendimento imediato.

Existe cardiotoco em aplicativo?

Um aplicativo não substitui o cardiotoco. Aplicativos de contrações como o nosso não medem nada no corpo. Eles guardam só os horários em que você toca em “Contração começou” e em “Contração terminou” e calculam a duração e o intervalo. Se o bebê está bem, um aplicativo não mostra: para isso, a equipe escuta os batimentos ou faz uma cardiotocografia.

Fontes

  1. FEBRASGO: Cardiotocografia anteparto, Protocolo FEBRASGO de Obstetrícia nº 81 (2018), cópia da SOGIRGS
  2. Rede D’Or: Cardiotocografia: O que é, como é feito e qual o preparo
  3. Ministério da Saúde: Diretrizes Nacionais de Assistência ao Parto Normal, versão resumida (2017)
  4. Ministério da Saúde: Caderneta Brasileira da Gestante (2026)
  5. Miles AM, Monga M, Richeson KS: Correlation of external and internal monitoring of uterine activity in a cohort of term patients. Am J Perinatol (2001)
  6. ACOG: How to Tell When Labor Begins, patient FAQ (reviewed 2025)
  7. NHS: The stages of labour and birth (2023)
  8. Lamaze International: When in labor should you go to the hospital? (2021)

Este artigo não substitui orientação médica. Na dúvida, ligue sempre para a maternidade, seu médico ou sua enfermeira obstétrica. Em uma emergência, ligue para o SAMU (192).

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